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Domingo, Junho 01, 2008


Retrato de um condômino enquanto idiota

É mais ou menos assim que eu lembro do prédio. Cada número é uma pessoa. Na verdade são dois apartamentos por andar, porém cada andar tem a pessoa que merece. Foram dois anos muito bem passados naquele prédio cinza claro, com janelas brancas. Alguns tinham ar condicionado. Não lembro quais. Acho que eram os mais altos, por motivos óbvios.
Minha familia vivia no décimo. Eu, um gatinho, minhas duas irmãs e meus pais.
O resto não importa muito. No décimo primeiro, vivia um casal de velhinhos muito simpático. O engraçado é que eles só tratavam o nosso andar bem. Lembro que um dia desses, com quase mais de um ano de prédio, entrando no elevador, vi os dois pintando as paredes do nosso transporte vertical com uma espécie de caneta que brilha no escuro. Pelo menos foi o que eles me falaram que era.
No dia da nossa mudança eles me deram a caneta de presente. Quis perguntar porque, mas não tive coragem. Do décimo segundo lembro da velha amiga da minha irmã mais velha. Irritava por muito pouco. Era só o elevador não subir direto pro andar dela que ela começava a socar a perna. Ela só não fazia isso quando o elevador parava no nosso andar. Como sabia dos socos dela? Minha irmã me contou. Em um dia que ela ia pro apartamento da amiga.
Do nono e oitavo eu não lembro dos moradores. Do sétimo andar, eu ouvi dizer muito coisas. Diziam que era um vocalista de uma banda famosa, que adorava responder educadamente os jornalistas e que cantava que nem bêbado. Ele tinha um irmão gêmeo que morava no primeiro andar. Sei que esse tinha uma barba bem cultivada e que não conversava com o irmão. Problemas familiares, nunca dá pra entendê-los.
Quinto e sexto andares. Existia uma família albina, quase não saía de casa. Acredito que viviam de cortinas fechadas e conversas estranhas. É interessante pensar nisso, já que os membros dessa família cumprimentavam as pessoas do elevador com um longo uivo. Loucos? Sei não.
E a família mais comum da história do prédio morava nos andares restantes: o terceiro, o quarto e o segundo andar. Esses estavam no prédio havia duas décadas e faziam questão dos outros moradores ficarem a vontade. Eles limpavam as dependências do prédio e pediam um sorriso pra todos que iam entrar no elevador. Às vezes faziam gincanas com os mais jovens. Eu fui alvo de uma delas.
Lembro que fiquei bem sem graça com a brincadeira da cadeira. Eu ganhei um prêmio pela vitória: uma câmera digital.

Ps: Eu já devo ter postado esse, mas não importa.

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